A VOZ DE DEUS
A principio, esse documentário de Miguel Antunes Ramos causa incômodo em quem não vê com bons olhos o tsunami evangélico que abala o Brasil. A equipe acompanhou por alguns anos as atividades de dois pregadores mirins: Daniel Pentecoste em Brasília e João Vitor Ota em São Paulo. São dois meninos precoces que se destacaram em pequenas igrejas e nas redes sociais. Nos cultos, comportavam-se como pequenos adultos a espalhar a “palavra de Deus”. João com um tanto mais daquele entusiasmo que se confunde com a histeria dos pastores pentecostais.
Ambos são vistos na interação com os pais, que estimulavam e gerenciavam suas carreiras. O pai de Daniel investia na produção de DVDs com os sermões do filho, enquanto o de João usava a imagem do garoto para vender roupas masculinas.
Mais do que as semelhanças, o filme realça as diferenças entre eles. Em paralelo a suas pregações, Daniel levava uma vida de garoto comum, com namorada, emprego num mercadinho, videogames e um pai bolsonarista de quem elegantemente discordava. João, por sua vez, tinha atuação mais performática e alimentava “o sonho americano”. Os dois aparecem juntos no Congresso Gideõezinhos de pregadores mirins, verdadeira assembleia de aberrações infantis.
As diferenças, porém, vão se diluir quando se trata de descortinar o sucesso ou o fracasso das iniciativas comerciais de cada um. Daniel perde espaço nos cultos, abandona o quipá (a mitologia judaica é onipresente) e acaba mudando radicalmente de cidade e de vida. João tem que encarar o fato de que seu carisma não estava ajudando muito a impulsionar as vendas. A teologia da prosperidade nega fogo.
Afora essa dimensão de malogro nos dois casos, A Voz de Deus não traz muita luz nova a seu tema. O roteiro de Miguel Antunes Ramos e Alice Riff (Eleições, Sagrado) apenas enfileira flagrantes dos personagens, suas famílias e suas performances. Especialmente em relação a João Vitor, a abordagem pouco difere do que seria uma propaganda do elétrico pastorzinho.
>> A Voz de Deus está nos cinemas.





Não vi ainda, mas está em cartaz no Cine Banguê, cinema público de João Pessoa